ASSEMBLEIA DE DEUS
Antonio Abujamra ao final de cada “Provocações” – programa da TV Cultura que vai ao ar todas as terças, faz a seguinte pergunta: Quem mais prejudicou o mundo, a ciência, a arte, a religião ou os bancos? Quem assiste ao programa sabe que a resposta de todos entrevistados é: Religião! Espinhoso é escrever sobre os credos humanos, sejam eles quais forem. Há que ausentar do discurso, as siglas, posto que estas, apenas nomeiam os cardumes. Não caberia aqui, críticas sobre essa ou aquela denominação, o discurso cairia num vazio retórico sem fim, porém no mar das crenças há toda espécie de animais. Posto que os tubarões vagam nesse mar de crenças em busca de vítimas que possam devorar; a sagacidade do leitor saberá conduzir-lhe os passos na leitura, onde deseja que se chegue. Para quem acredita na filosofia de um jovem chamado Jesus, fica fácil compreender a seguinte questão: - Eis que farão comércio de vós!
Essa é a parte que me interessa de toda a historia do cristianismo para esse texto, o comercio da fé. A assembléia de Deus montada no congresso nacional, - aqui se entenda todos os seguimentos - com seu modus operandi – bancada evangélica e outros – legisla em nome de princípios humanos baseados na religião, agredindo a constituição que por sua vez impreca por vias indiretas que o estado é laico. Embora na constituição não haja o conceito “Estado Laico”, a constituição federal (CF) em seu artigo 19, I diz apenas o seguinte: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.” (Grifo nosso). Desta forma fica separado: Estado e Igreja. Os políticos que se proclamam representantes do seguimento religioso deveriam calar-se diante da CF quando o assunto for moral religiosa, uma vez que; se defendem religião: sua expressão política é nula, pois a constituição não arbitra religião. Lá, no congresso se faz leis e a religião não poderia participar do fabrico das leis porque o estado é laico, logo, o eleito não pode representar aquele que o elegeu para o assunto “religião”. Assim o tubarão é eleito pelo cardume, mas não pode representá-lo, apenas devorar-lhe as carnes. De que forma? Dizendo: Eu te represento, vote em mim. Um exemplo são os adventistas do sétimo dia - que não se entremetem em política, salvo raríssimas exceções: se um parlamentar propusesse lei sobre o sábado como ponto facultativo no trabalho, ele incorreria em ato inconstitucional, porque estaria delegando em favor de ideologia religiosa e a laicidade do Estado o impede. Em 2007 quando o papa panzer, Bento XVI esteve por aqui, houve rumores de uma suposta pressão da Igreja Católica para consolidá-la como igreja oficial do Brasil por vias legais. Genericamente falando, toda religião tenta impor no homem, princípios morais que possam torná-lo melhor, para isso apelam para mudanças de comportamento invocando sempre essa ou aquela recompensa espiritual (o invariável céu). Com isso, supõem melhorar a sociedade - nada mais justo e correto no campo das intenções. A grande questão é, quando o religioso acha que os princípios de sua espiritualidade particular servem para outros e busca impor pela força de lei seus “dogmas” – palavra antiga e fora de moda. O ambiente para difundir essas idéias no Brasil tem sido o congresso. Como o estado é laico e não se podem fazer leis sob a égide do estigma chamado religião; deputados e senadores, açambarcados nas bancadas evangélicas, digladiam-se para impor seus pensamentos teocráticos numa tentativa de criar um estado paralelo, nas sombras do congresso. O perigo dessas aventuras ideológicas é que elas acham ressonância na cabeça de boa parte da sociedade, que ignara de seus efeitos, aplaude. Todas as vezes que a religião esteve atrelada ao poder temporal houve crimes de toda sorte, assassínios em massa e corrupção sem trégua; o papado e o islã são provas disso. Religião e política são remédios para as sociedades, mas se aplicados juntos; na mesma seringa, leva um país para o caminho político das aberrações surrealistas e das ditaduras excêntricas - haja vista a Europa antiga, Oriente Médio e Ásia. As hipóteses da moralidade humana, escritas em livros duvidosos que arremetem ao purismo ideológico, são os paradigmas utilizados como ferramentas para cinzelar a sociedade e modela-la como Estado Cristão, Muçulmano, Budista e outros. A espiritualidade é de foro íntimo, nela estão contidos nossos receios e esperanças, as verdades ditas a estes não servem para aqueles. Outra coisa que me execra o espírito é ver o magistrado sentenciar “segundo a vontade de Deus”. O que é mil vezes pior do que fazer a lei é punir pela lei “santa” – no caso uma lei feita por um senado sobranceiramente religioso. Em muitos casos, como exemplarmente vimos, um respeitável magistrado; Jerônimo Villas Boas, arremeteu-se contra o supremo - ao que parece motivado pela sua orientação deificada. Não havendo lei especfica, ele agiu, em minha opinião, segundo sua crença. Em teoria, não discordo de seu pensamento, posto que a união homoafetiva reconhecida por lei como família, traria enormes disparidades com os usos e costumes de nossa sociedade. O supremo haveria apenas que silenciar-se diante de um assunto que não possa julgar por falta do instrumento chamado lei; não havendo tal lei, o supremo afronta mais uma vez com sua judicialização arbitrária o congresso – ativismo judicial. Isso é assunto do congresso nacional, o criar leis. Um outro caso antigo; um certo juiz goiano - aposentado, julgou baseando-se em mesmerismos espíritas. Onde não há lei não há pecado, eis a Bíblia. No entanto há leis temporais e “espirituais” e esta, segundo a alma de cada um e cada qual julgada em sua esfera.
Waldemar Rego. Escritor e artista Plástico em Ap. de Goiânia. waldemarregojr@gmail.com http://wwwwaldemarregoescritor.blogspot.com
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